Presente do TUBA -

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" Não é a força ,mas a constância dos bons sentimentos que conduz o homem à felicidade".Nietzsche

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segunda-feira, 16 de março de 2009

CASTELO DOS DESEJOS - IV CAPÍTULO.














IV

Castelo dos Desejos.

Uma nova manhã estava surgindo! Sentindo-se forte o suficiente para se levantar, ela caminhou em direção à janela, cantarolando. Sequer imaginava que ele, junto à porta, observava-a.

- Vejo que estás recuperada! Quero que, às onze e meia da noite, vistas aquele vestido vermelho e desças ao salão de festas.

Ela se virou, cessando o canto, e respondeu:

- Eu não vou.

- Se não desceres, eu venho te buscar.

Ele se afastou e a deixou chorando sozinha na sacada. Desconsolada, olhando para o alto como a pedir ajuda da lua, ela se sentou no chão até a chegada da criada com o jantar.

- Eu não quero nada – pronunciou, com os olhos inchados de tanto chorar.

- Acho melhor a senhorita se alimentar.

- Para quê? Eu quero sair daqui...

- Vem, toma um banho para acalmar teu espírito. Pára de chorar, relaxa e janta, para ficar forte. Deixarei o jantar junto à lareira, para que não esfrie.

- Não, diz-me onde é a cozinha, que eu descerei para jantar com a senhora.

- Isto não é possível, senhorita.

- O que é impossível?

- Jantar com a senhorita. Mas se preferir jantar na cozinha, dentro de meia hora virei buscá-la.

- Eu quero, sim. Estou cansada deste quarto, e de ficar sozinha.

- Então esteja pronta dentro de meia hora, pois a cozinha fica longe.

- Estarei esperando a senhora, pode levar o jantar.

Durante o banho, ela tentou imaginar uma maneira de fugir do castelo. E pensou:

- Talvez fazendo amizade com a criada, ela poderá me mostrar a saída.

E ficou pensando, sem se importar com o tempo, até que a criada retornou para buscá-la.

- A senhorita está pronta? - falou a criada, com a toalha na mão.

- Eu já vou sair. Agora estou com fome.

- É só o tempo de chegarmos à cozinha, pois a comida está no fogão.

- Então vamos.

A escada de acesso à cozinha era do lado oposto ao salão de festas. A criada trouxera dois castiçais, que comportavam quatro velas acessas cada. Porém, nos corredores, a luz parecia não iluminar o ambiente. Então, para tentar melhorar a luminosidade, ela pediu-lhe para segurar um deles.

- A senhorita tem certeza de que quer me ajudar?

- Sim, por que não haveria de querer?

- É que esta sua atitude é nova para mim!

- Penso que devemos ajudar as pessoas sempre que estiver ao nosso alcance.

A criada sorriu, e a donzela nem sentiu o tempo passar na trajetória até a cozinha.

- Chegamos, senhorita. Pode entrar.

Ela ficou parada por um instante diante daquele imenso cômodo de móveis escuros, com bancos e cadeiras entalhados com um desenho desconhecido para ela.

- Entre, senhorita! Já servirei o jantar.

Aproximou-se vagarosamente, mas atenta a todos os detalhes exibidos naqueles móveis rústicos e ao mesmo tempo majestosos. Não se conteve. Possuída pela curiosidade, sentou-se e foi logo perguntando:

- Observei que esse desenho está entalhado em todos os móveis... Que figura é essa?

- É o brasão da família.

- Um brasão?!

- Sim.

- Mas de qual família?

A criada abaixou a cabeça e disse:

- Agora tenho que sair.

- Não, fique aqui comigo!

- Não tenhas medo, preciso sair.

- Mas não sei o caminho de volta...

Olhando para a porta, ela entende a razão da criada ter que sair apressadamente.

- Eu a levarei – disse ele, entrando na cozinha. – Está com fome?

- Muita.

- É bom mesmo que se alimente, porque ficaremos na festa até o amanhecer.

- Não quero ir à festa.

- Eu quero que estejas na festa comigo e, como havia dito antes, se não fores, eu irei te buscar.

Ele pronunciou esta frase sentando-se frente a ela.

- Vais ficar aí me olhando comer?

- Estou observando o movimento dos teus lábios.

Ela continuou a refeição, com aquela presença a lhe tirar a liberdade de movimentos. Irritada, perguntou:

- E o que há de tão interessante no movimento deles? Eu estou apenas comendo.

- Há muito mais do que pensas...

Com isto, ela terminou rapidamente a refeição.

- Vamos.

- Já terminaste?

- Sim.

Quando a criada saíra, levara consigo um dos castiçais, tendo restado apenas um, que ele segurou ao se levantar, dizendo:

- Então vamos.

Juntos, lado a lado, retornaram pelos caminhos escuros do castelo. A princípio ela ficou distante dele, mas, durante o percurso, quando surgiu o primeiro corredor, aproximou-se ligeiramente, pois era escuro demais e o medo lhe causava arrepios. Nesse instante, o aroma de seus cabelos invadiu as narinas dele, que quase agradeceu ao vento pelo prazer que lhe estava causando. Movido apenas pelo momento e esquecendo-se da sua postura de carrasco, perguntou:

- Qual o teu nome?

Ela, julgando-se no direito de não responder, devolveu outra pergunta:

- Por que queres saber? Faz alguma diferença?

Um silêncio inquietante pairou sobre os dois, até o momento em que chegaram frente à porta do quarto, quando ele ordenou:

- Estou te esperando na festa.

- O que irei fazer lá?

- Ficar ao meu lado.

- Não quero! – disse ela, quase gritando.

- Eu quero! – disse ele, afastando-se sem olhar para trás. Porém, se olhasse, vê-la-ia diante da porta, triste e desanimada. Minutos depois, resolveu entrar e vestir-se, pois sabia que seria impossível não estar presente à festa. Seu querer era inferior ao dele. Colocou o vestido, o colar e os brincos, escutou o barulho dos convidados chegando e o som da música alta. Cansada, encostou-se na cama e adormece.

Ela nem teve tempo de, nos seus sonhos, sair do castelo. Minutos depois de adormecer, a criada veio buscá-la.

- Venha, senhorita, ele a espera.

- Mas eu nem arrumei meus cabelos.

- Vá assim mesmo, a senhorita fica muito bem com eles soltos!

Ela se aproximou do espelho e notou que realmente seria uma boa idéia, já que os cabelos soltos cobririam o decote. Desceram juntas até o salão, pois esta era a ordem dada à criada, para que a jovem não tentasse fugir. A criada disse:

-Espera aqui... avisarei que a senhorita chegou.

Assim fez a criada. Passou pelo salão sem ser notada pelos convidados, e o chamou num canto escuro da sala, informando que suas ordens haviam sido cumpridas.

- Parem a música! Deixem minha convidada passar! – ele, em pé, anunciou.

Ela começou então a andar em sua direção. Igual à outra noite. Era como se fosse uma repetição da festa passada: os olhares de admiração, de cobiça e de inveja depositados em seu corpo. Nesse exato momento, sentiu-se como um animal raro em uma exposição particular. Respirou fundo, e passou entre os convidados, pensando:

- Terei novamente que assistir a coisas que não quero?

Olhando ao seu redor, parecia que tudo era igual à outra noite: as pessoas, as expressões, as danças, as roupas, a música... Seu coração se apertava dentro do peito, e sua alma chorava. Finalmente chegou diante dele.

- Estes são meus primos, Igor, Luísa , Christine e Emili.

- Prazer.

- Como é o nome dela, Lucas?

Ele ficou sem saber o que dizer, pois não tinha resposta para a pergunta do primo. Calado, pensou: que diferença faz saber seu nome, pois sei que ela é a portadora da saudade dos momentos não vividos e que, além disto, sinto-me completo diante dela?

Aliviada diante das únicas pessoas aparentemente sensatas e amistosas da festa, com voz serena ela pronunciou:

- Meu nome é Mary.

- Não acredito , Lucas, que não sabias o nome de tão bela convidada.

E acrescenta:

- Quanta indelicadeza de tua parte, ainda mais vindo de um nobre! Peço-te desculpas por meu primo! – disse Igor, fazendo reverência e beijando as mãos da bela hóspede.

Foi então a vez de Mary pensar: Pouco me importa o nome dele. Saber que me amedronta e que quer roubar o tesouro que guardo para quem encontrar a chave do meu coração... Quanto menos souber a seu respeito, melhor. O que quero é distância.

Foi inevitável, porém, a sensação que ambos tiveram quando seus olhares se encontraram. Ela baixou a cabeça diante daquele olhar que trazia consigo uma nova descoberta. Ele tentou esconder o que estava sentindo, conduzindo-os até o sofá.

Permaneceram os seis sentados, assistindo aos números e danças em meio ao salão. Mary, para disfarçar o mal-estar, passava as mãos nos cabelos, sem perceber que, ao jogá-los para trás, expunha seus seios imponentes aos olhos de todos e, em especial, aos de Igor, que lhes lançava olhares de desejo. Lucas fingia não ter notado o interesse do primo, mas estava atento a cada gesto, a cada olhar... Seu coração tentava lhe dizer o que não queria escutar.

A bailarina que acabara de fazer a dança do ventre dirigiu-se ao anfitrião e, com voz repreensiva, perguntou:

- Por que não deixas tua convidada especial nos mostrar como dança?

Mary arregalou os olhos e quase desmaiou com a indagação da jovem. Lucas sabia que não poderia privar os demais convidados da chance de vê-la dançando, até porque nunca havia dito um não a um pedido dessa natureza. O que pensariam seus convidados? Tentava encontrar uma solução para o problema. Olhando para Mary, com voz firme disse:

- Chegou a tua vez de mostrar como danças.

- Mas... mas como farei isto? – indagou tristemente.

Ao perceber o seu constrangimento, Igor falou em sua defesa:

- Lucas, diga aos convidados que, como é a primeira vez que ela assiste aos espetáculos, dançará comigo.

Ao escutar o pedido do primo, Lucas sentiu uma ponta de ciúme se instalar em seu coração. Mas, de certa forma, Igor havia achado uma solução para o problema que nem mesmo ele saberia resolver sem abalar sua reputação diante de todos.

- Que assim seja – respondeu, tentando manter sua postura de mau.

Os convidados se afastaram, deixando o centro do salão vazio, a fim de que Mary e Igor começassem a dançar. Igor pediu aos músicos que tocassem um ritmo diferente das demais músicas. Colocou-se diante de Mary e a conduziu até o centro. A música começou. Mary fechou os olhos, para afastar o constrangimento e para poder sentir melhor a melodia que seduzia seus ouvidos. Todos observavam atentos cada movimento dela e, para surpresa de todos, uma sensualidade pairava no ar a cada gesto da jovem.

Luísa chegou perto do primo e, na maior inocência, comentou:

- Eles não formam um belo casal?

- Vamos ver a dança – diz Lucas, tentando esconder o ciúme.

Aos olhos de todos, Mary e Igor fizeram uma dança sensual, diferente das eróticas de até então, mas que causava aos presentes uma sensação nova, por ser envolvente, com um toque de simplicidade e de erotismo que encantava a todos, mesmos aos invejosos ali presentes. Era uma dança que liberava sentimentos doces, puros e cheios de desejo, não de forma vulgar, mas cativante. Em meio à dança, Igor tentou beijá-la, devido à libido alterada, mas ela se afastou e continuou dançando. Ele tentou novamente. Ela se afastou. Seus corpos bailavam, insinuando as preliminares do sexo.

O que mais chamava a atenção de todos, era que não havia contato entre os dois, os corpos não se tocavam, apenas insinuavam o contato. Mary olhou para Lucas e, em forma de vingança, finalizou a dança com um ardente beijo, que Igor nem acreditou estar acontecendo.

Os aplausos foram inevitáveis, demonstrando assim que os convidados haviam apreciado a demonstração de Mary e de Igor. Lucas foi o único que não manifestou tal reação, pois o sentimento que experimentava no momento mexia com sua sólida estrutura emocional, despertando naquele momento uma ira galopante endereçada ao primo que, inocentemente, aproximou-se, feliz e sorridente.

Igor ficara fascinado com a dança, com o beijo e, especialmente, com a bela Mary. Pelo resto da noite, lançou-lhe olhares carinhosos, enquanto que Lucas lhe dirigia olhos de repreensão. Isso durou até que o último convidado deixasse o castelo. As mãos de Mary foram beijadas por Igor ao se despedir. Através dos olhos dela, sentiu que o gesto não fora ousado, e que a doçura dela crescia a cada instante. Luisa e Christine também se despediram. Ao beijá-la, comentaram que haviam gostado da dança. Como Lucas não estava por perto, Mary sentiu-se na obrigação de levá-los até a porta.

- Este meu primo envergonha nossa família – disse Igor rindo.

- Acho que levou uma das convidadas para os seus aposentos – comentou Luísa, em tom de malícia.

- Acho bem provável que tenha levado companhia feminina, pois sua fama de conquistador é conhecida em toda parte – afirmou Christine, observando a reação de Mary.

- Quanto a mim, fui premiado, permanecendo mais tempo perto de ti! – exclamou Igor, olhando docemente para Mary.

- Vamos embora, Igor, o cocheiro está à nossa espera, e Mary deve estar cansada – disse Emili.

Cumprimentaram-se novamente, e foram embora. Por um instante, Mary ficou admirando o nascer do sol, que pintava uma tela divina atrás das altas montanhas. O mordomo aproximou-se, dizendo:

- A senhorita está precisando de algo?

Com um olhar triste, ela respondeu:

- Não, ou melhor, estou precisando de paz.

- Posso fechar a porta? – ele continuou.

- Sim.

Ela deu as costas ao mordomo e subiu as escadas, pensando: Será mesmo que ele está com uma das convidadas em seu quarto? Tomara mesmo que esteja, assim esquecerá de mim por hoje, e poderei dormir descansada.

Todavia, ao abrir a porta do quarto, deparou-se com Lucas. Ela mal havia entrado e ele lhe ordenou:

- Aproxime-se!

O medo a fez obedecer.

- O que pretendes fazer?

- Aproxima-te mais e tira o vestido, porque quero ver todo o teu corpo.

Mary, a fim de tentar se acalmar, deu um longo suspiro, abaixou os olhos e aproximou-se. Deslizou a primeira alça do vestido sobre o ombro, depois a outra... Abriu o zíper das costas e deixou o vestido deslizar pelo seu corpo, caindo a seus pés. Foi como se o tecido acariciasse seu corpo. Respirou fundo, abriu os olhos e, com firmeza, procurou demonstrar segurança fitando-o com frieza. Mas isto não o enganou. Sem que ela se desse conta, ele conseguia ver a virgem cheia de medo à sua frente.

A forma com que Mary se despiu deixou-o maravilhado, provando mais uma vez que ela era diferente de todas as mulheres que havia tido até então. Sentiu seu corpo clamando pelo corpo dela, mas seu coração, não. Na batalha travada entre as duas emoções, ele perdeu para o coração. Voltando-se rapidamente, saiu do quarto, deixando-a sem entender nada.

- Volta! Não é isto o que queres? – gritou Mary, desnorteada.

Ele fingiu não escutá-la, e não olhou para trás. Mary ficou irritada, ao mesmo tempo em que agradecia aos céus por escapar mais uma vez dos braços de Lucas. Contudo, o sono parecia não querer visitar seus olhos. Quando resolveu chegar, parecia não querer mais abandonar seu corpo.

Dormiu até o anoitecer. Levantou-se ainda exausta da noite anterior. Depois de vestir-se, saiu do quarto e começou a caminhar pelo castelo, até encontrar a criada, que lavava as taças de cristais.

- O que a senhorita está procurando?

- A senhora sabe onde posso encontrar livros?

- Sim, na biblioteca.

- Como chego lá?

- A senhorita não está com fome? Posso preparar algo para comer...

- A fome que estou sentindo só será saciada diante dos livros.

- A senhorita espera um pouco que já a levarei.

Depois de alguns minutos:

- Pronto, agora posso te levar à biblioteca – disse diz a criada, secando as mãos.

Mary entendeu a razão de ter que esperar pela criada quando se deu conta de como era longo o trajeto até a biblioteca. Passaram por diversas salas, corredores e escadas.

- A senhora não se perde neste castelo?

- No começo era difícil identificar onde estava localizado cada cômodo do castelo, mas agora é fácil.

Surpresa, Mary continuou:

- Faz tempo que a senhora trabalha aqui?

- Muito tempo – disse a criada, parecendo lembrar o passado.

- Chegamos, senhorita!

A porta estava trancada. A criada tirou um molho de chaves que estava em seu guarda-pó, e pediu a ajuda de Mary para que abrissem juntas a porta. O ar do ambiente foi renovado quando ela se abriu. Mary ficou maravilhada diante da majestosa biblioteca, cujas paredes estavam cobertas de livros até o teto, como um arranha-céu.

- Eu posso ficar aqui? Não vou te causar problemas? – perguntou Mary, encantada com o lugar.

- Fique até eu trazer um lanche para a senhorita, depois verificarei se não tem nenhum problema em ficar aqui – respondeu a criada, preocupada.

- A senhora parece preocupada. O que a preocupa?

- É que ninguém entra na biblioteca há muito tempo – disse a criada, saindo.

Mary não resistiu e começou a tocar um por um dos livros que estavam à sua mão, como se estivesse se apresentando a eles. Sua atenção foi cortada quando viu uma escada de madeira que, com toda certeza, servia para alcançar os exemplares que moravam no alto das estantes. Impulsivamente, começou a escalar os largos degraus. A meio caminho, sentiu uma tontura que a fez descer. Respirou fundo, sentou-se à escrivaninha e, de cabeça baixa, escutou passos vindo em direção à biblioteca.

- Vim trazer o seu lanche, senhorita, e avisar que a luz acaba de habitar novamente o castelo!

- Como assim, “a luz acaba de habitar novamente o castelo”?

- Há mais ou menos um mês, em uma noite de tempestade, um raio estourou o gerador de energia do castelo, mas agora o problema foi solucionado. Mas... O que houve? A senhorita parece não estar bem. Deve ser fome, eu a avisei...

- A senhora tinha razão, acho que devo me alimentar.

A criada afastou os livros que estavam sobre a mesa e serviu o lanche a Mary, acendendo as luzes da sala antes de sair. Só então ela pôde observar o ambiente. A escrivaninha ficava no centro da sala, rodeada de livros. Nas estantes, os livros estavam organizados por cor, e a cor preta era a que predominava.

Ela passou as primeiras horas lendo. O assunto era magia, hipnose, fórmulas, rituais... Deduziu então que, conforme a cor, era o tema a ser explorado. Esses temas não lhe despertaram o interesse. Muito pelo contrário, causavam-lhe arrepios. Optou pelos de capa azul-escuro, sobre a história de uma família de sangue azul. Era uma história interessante, mas a cor dourada da capa de um livro sobre a mesa fez com que ela abandonasse a leitura.

Aquele volume parecia ter vida própria, pois era como se estivesse chamando por ela. Mary ficou parada frente a ele por um bom tempo, admirando sua beleza, até o momento em que lhe pareceu escutar uma voz pedindo para que o abrisse. Sentiu como se um ímã estivesse conduzindo suas mãos. Deslizou levemente os dedos no brasão em alto relevo. Um arrepio passou pelo seu corpo, não de medo, mas uma sensação como se fosse de sedução. Logo na primeira folha leu a seguinte dedicatória:

“A ti, meu amado filho. Que este diário sirva para registrares as tuas fraquezas”.

Tua mãe, a rainha.”

Nesse instante, escutou passos. Pensou ser a criada, mas assustou-se ao ver Lucas fechando a porta. Mais do que depressa, fechou o livro e levantou-se, com medo de que ele brigasse. Mas se tranqüilizou quando ele disse:

- A criada me disse que estavas aqui. Poderás vir sempre que desejares, apenas não quero que leia os livros que ficarem em cima da mesa, como esse, por exemplo – disse, apontando para o seu diário.

Ela tentou mudar de assunto, tamanho era seu medo no momento, e perguntou:

- Haverá festa nesta semana?

- Não. Suspendi as festas, a princípio por três meses – respondeu, recolhendo os livros que estavam sobre a escrivaninha.

-Permaneça aqui, se assim for da tua vontade.

Ele saiu, e Mary ficou lendo até o amanhecer. Aos poucos, quando o sono insistia em visitar seus olhos, foi se debruçando sobre a escrivaninha, até seu rosto tocar os livros e ela se render ao cansaço.

Ao amanhecer, bem cedo, Lucas retornou à biblioteca. Vendo-a assim, adormecida sobre os livros, tentou despertá-la. Logo, contudo, percebeu que seria em vão, pois o sono era profundo. Então tomou-a em seu colo e a conduziu até o quarto. Não sentia o seu peso. Tê-la em seus braços sem recusa, apesar de saber que estava adormecida, foi algo que lhe agradou. Sentiu paz em sua alma, como se ela fosse a portadora daquela paz que ele tanto almejava.

Durante o trajeto, não apressou o passo. Ao contrário, caminhava lentamente, parando a cada degrau para admirar os belos traços do rosto de Mary, e sentir a cada respiração o aroma do seu hálito, saindo dentre seus lábios. Houve uma transformação visível em sua face. Ele nem viu a criada em um dos corredores, pois tudo e todos ficaram em segundo plano enquanto ele estava assim, junto dela.

No quarto, colocou-a na cama com cuidado, para não acordá-la, e ficou pensando no que estaria ela sonhando naquele momento. Resolveu então entrar em seus sonhos. Concentrou-se, e viu que ela sonhava estar em uma de suas festas; sentiu o medo que ela passou ao entrar entre os convidados, e o frio congelando seu corpo. Conseguiu também sentir a gratidão dela quando ele lhe cobriu o corpo com sua capa.

- Senhor, Igor está na sala de visitas à sua espera – diz a criada, interrompendo.

- Igor aqui? Não combinei nada com ele.

- Deve ser por causa de Mary, senhor.

- Por que afirmas isso?

- Porque ele traz flores.

Nesse momento, seu semblante se alterou, e a criada, não entendendo a razão disto, pensou ser ela a causadora de toda a ira visível em seu rosto.

- Já vou descer.

Ele permaneceu por mais alguns instantes no quarto, tentando se acalmar. Ao descer, encontrou Igor. Ao ver o primo diante dele, radiante e com um contagiante sorriso, tentou se acalmar. Mas logo às suas primeiras palavras, sentiu acender-se a chama do ciúme, aliada a uma descontrolada ira.

- Boa noite, Lucas! Onde está a tua bela hóspede? – indagou Igor, sorridente.

- Dormindo – respondeu Lucas, num tom seco e direto.

- O que anda fazendo com ela, para deixá-la cansada a uma hora dessas? – insinuou Igor com um sorriso malicioso.

- Não quero tocar nesse assunto.

- Mas eu preciso, porque estou interessado nela.

- Como assim, “interessado nela”? Que tipo de interesse? Por que o interesse?

- Calma, primo! Percebo que não sou o único interessado. Vejo que tu também estás.

Mais do que depressa, Lucas tentou disfarçar, dizendo:

- Claro que não estou. Ela será apenas mais uma que terei em meus braços, como tantas outras.

- Isto quer dizer que não a teve ainda? E por que está me tratando assim, com esse ar de indiferença? Atrevo-me até a dizer que estás com ciúmes! Agora entendi a razão de teres cancelado as festas por três meses. Em todos esses anos, nunca ficaste sem oferecer aos teus amigos pelo menos duas grandes festas durante o mês.

- Não é nada disso. O meu aniversário se aproxima, e eu estou preocupado com alguns problemas de ordem diplomática.

- Ah, que alívio! – suspirou Igor – Então quer dizer que posso cortejá-la?

- Claro que pode! – Lucas pronunciou a curta frase sem o consentimento do seu coração, mas era necessário, para não demonstrar seus reais sentimentos em relação a Mary.

- Sendo assim, quando ela acordar, faça o favor de entregar-lhe essas rosas.

Igor saiu, deixando as rosas nas mãos de Lucas, e o brutal consentimento que o fez sentir tempestades em seu coração em plena noite de luar. Permaneceu paralisado, sem saber o que fazer, olhando fixamente as rosas, enquanto tentava coordenar seus pensamentos, tentando achar uma saída. Os segundos pareciam horas de agonia, até o instante em que teve a idéia de refugiarem-se no castelo da montanha. Saiu à procura da criada, dando-lhe as seguintes ordens:

- Arruma as nossas malas, pois logo ao amanhecer iremos para o outro castelo.

- Roupas para quantos dias?

- Ainda não decidi, mas avisa Mary que ela irá conosco e que teremos que acordar muito cedo.

- Quem irá?

- Mary e eu. Tu vais vir conosco.

Naquela noite, Lucas não conseguiu dormir. Passou a noite inteira escrevendo em seu diário. Mesmo assim, os ponteiros do relógio pareciam andar para trás. Somente respirou aliviado quando o dia anunciou, através dos primeiros raios de sol, que era hora de partir. Levantou-se e dirigiu-se ao cocheiro, pedindo-lhe que trouxesse a carruagem para a frente do castelo.

Mary, sem saber a razão da viagem, estava contente, pois sentia certa esperança pairando no ar, uma esperança incompreendida, porém real.

- Para onde vamos? – perguntou ela, curiosa.

- Vamos passar uns dias em outro castelo – respondeu Lucas.

Estas foram as últimas palavras pronunciadas durante toda a viagem, até o anoitecer, quando Mary informou que estava cansada e com fome.

- Chegaremos logo, senhorita! Encoste sua cabeça em meu colo – disse a criada, olhando para ele como se pedindo aprovação.

Sem pensar duas vezes, ela colocou a cabeça no colo da criada, esticou os pés em direção à janela, e logo adormeceu.

A criada observou o rosto de seu senhor e, pela primeira vez, viu nele certa doçura, ao olhar Mary dormindo...



* Imagem- Recebendo um presente no dia o lançamento do livro. Data também do meu aniversário!

4 comentários:

Francisco Libânio disse...

Adorei seu blog, vou colocá-lo entre os meus favoritos.

Tudo de bom.

Visite minha página de poesias.

http://franciscolibanio.blogspot.com/

Cármen Neves disse...

Olá Francisco!Grata pelo link. Farei o mesmo aqui. Passarei daqui a pouco no teu blog.Grata pela visita.

Xana disse...

mais um capitulo emocionante....será que a Bela vai amansar a Fera?

beijinhos

Cármen Neves disse...

Xana, bom tê-la aqui!Beijos