Presente do TUBA -

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" Não é a força ,mas a constância dos bons sentimentos que conduz o homem à felicidade".Nietzsche

" Não é a força ,mas a constância dos bons sentimentos que conduz o homem à felicidade".Nietzsche

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Segundo capítulo do Castelo dos Desejos.


















II

Ao acordar, ela sentiu que sua presença ali era real e não um sonho, como pensara. Possuída pela curiosidade, abriu o guarda-roupa, colocando o único vestido existente no cabide. Ficou surpresa com a cor branca e a sutil transparência do tecido, mas sentiu-se confortável com ele junto ao corpo. Abriu as cortinas e saiu à sacada, de onde avistou um lindo jardim repleto de rosas rubras, cujo aroma misturava-se ao frescor da bela manhã.

Correndo em direção da porta, ela percebeu que não tinha nada para calçar. Mesmo assim, desceu cuidadosamente as escadas. Havia um silêncio ensurdecedor ao seu redor, mas sentiu coragem o suficiente para prosseguir. Atenta a tudo, observou as sombrias telas expostas nas imensas paredes. Elas possuíam um toque de classe e bom gosto que a intrigou, bem como as suas combinações de cores, suas molduras raras e a sua enorme quantidade. Mas ela não permitiu que isto a desviasse de seu objetivo – sair dali o quanto antes.

Ao atravessar o salão principal, lembranças da noite anterior lhe causaram arrepios. Apressou então o passo, e chegou à porta de entrada, sentindo-se como uma fugitiva. Quase sem forças, empurrou-a. Do lado de fora do castelo, sentimentos de alívio e de liberdade pousaram em seu pensamento. Respirou fundo e começou a desvendar cada centímetro daquela liberdade.

Seguiu, guiada por um aroma de flores, e deparou-se com um magnífico jardim. Por uns instantes, esqueceu-se de sua meta – fugir. Descalça, aproximou-se das rosas, sentiu seu perfume e contemplou-lhes a beleza. Pisando na grama molhada e fria, porém, voltou à realidade. Ao fundo, podia ouvir a melodia das águas cortando o silêncio. Despediu-se do jardim e seguiu em direção oposta ao castelo.

Durante sua trajetória, encontrou uma pequena ponte de pedras com grandes estátuas em forma de indecifráveis pássaros em cada uma de suas extremidades, mas não se deixou amedrontar. Tentou atravessá-la, porém não conseguiu, como se houvesse alguma barreira invisível. Resolveu então permanecer ali, distante do castelo, contemplando a beleza do lugar, escutando o barulho das águas, sentindo o aroma das rosas – até o entardecer, quando o lugar, até então sereno e belo, começou a se transformar em sombrio e assustador. Os pássaros da ponte pareciam observá-la. Até mesmo gritos ela ouviu, como se eles estivessem agonizando. O medo fez com que ela permanece ali, parada, como que petrificada, até o anoitecer.

Sem ter conseguido atravessar a ponte, sua única saída foi retornar ao castelo, mas era difícil encontrar o caminho de volta, devido à escuridão. Ela estava perdida e desesperada. Saiu correndo, batendo-se nas folhas e nas árvores do caminho. Tropeçou e caiu ao chão, sentindo uma intensa dor nos seus pés machucados e com profundos cortes. Chorou baixinho, temendo chamar a atenção de alguém. Tentou mais de uma vez se levantar, mas a imensa dor não a deixava suportar o peso do corpo. De repente, sentiu-se flutuando no ar. Em meio às lágrimas, percebeu que estava no colo dele. Instintivamente, entrelaçou os braços em volta do seu pescoço, encostou a cabeça em seu peito, e foi assim conduzida de volta ao castelo.

Ele a segurava com firmeza, não demonstrando estar bravo. A prioridade, naquele momento, era socorrê-la o quanto antes. Conduziu-a até o quarto sem pronunciar sequer uma palavra, enquanto ela chorava baixinho. Ao chegarem, deitou-a na cama. Ela, como se desmaiasse, adormeceu. Quando a criada entrou, ele dispensou seus serviços, pois pretendia cuidar pessoalmente dela. Pediu-lhe apenas que acendesse a lareira, e providenciasse água e toalhas quentes. A criada acatou-o imediatamente.

Com o ambiente aquecido, tirou-lhe o vestido rasgado e sujo. A visão da bela jovem deitada nua, parecendo uma deusa, fez com que ele esquecesse os ferimentos por alguns segundos. Como não contemplar aquele belo exemplar feminino em sua frente, pensou ele, degustando com os olhos aquele corpo tão desejável. Enrolou os pés da donzela para estancar o sangue e, virando-se para o criado-mudo, umedeceu a branca toalha de veludo em uma bacia de porcelana marfim. Com cuidado começou a lavar o corpo inteiro da donzela, começando pelo seu delicado rosto, de traços belos e encantadores. Tinha a sensação de estar praticando um ritual extremamente sensual. Em algumas partes do corpo, além da toalha, usava as mãos.

Quando desenrolou a toalha, entendeu a razão dela se encontrar desmaiada, vendo os profundos cortes que tinha nos pés. O sangue que jorrava era precioso demais para ser desperdiçado. Sem hesitar, depois de limpá-los, sugou-os com vontade. Durante este ato, a jovem despertou, amedrontada, ficando ainda mais aflita ao perceber que estava coberta apenas por um lençol cinza. As lágrimas começaram a rolar de seus cristalinos olhos claros.

Ao perceber que sua hóspede estava consciente, ele suspendeu o ritual e, possuído pelo desejo, tentou acalmá-la sugando-lhe as lágrimas, beijando ferozmente sua boca, lambendo-lhe o pescoço. Ela o empurrou. Ele insistiu, descendo as mãos por suas pernas. Ela novamente tentou afastá-lo. Ele levantou-se de repente, tirou a camisa e encaixou seu corpo sobre o dela. Sentindo o doce hálito de sua boca, percebeu em seus olhos todo o pavor que estava lhe causando. Nesse instante, apertou-a com força e virilidade e, afastando-se de repente, ficou de pé diante da cama, cobrindo-a com o lençol. Ofereceu-lhe as mãos, mas ela não retribuiu o gesto. Ele então caminhou em direção à banheira.

Ela permaneceu na cama, imobilizada, até sua respiração voltar ao normal. Não mais escutando ruídos, levantou-se e dirigiu-se, com dificuldade, ao banheiro. Assustou-se, ao perceber que ele estava sentado na banheira e que, pelas roupas espalhadas no chão, estava obviamente nu. Começou a acendeu as velas uma a uma, até clarear o ambiente. Voltando-se para a banheira, surpreendeu-se ao ver que ele estava adormecido. Cuidadosamente aproximou-se, observando aquele belo exemplar de masculinidade assim indefeso, nocauteado pelo sono.

Como se sentia suja e necessitava mesmo de um banho, sentou-se fora da banheira para lavar o rosto, tentando fazer o menor barulho possível para não acordá-lo. Ao olhar para os próprios pés, ficou intrigada: houvera uma melhora significativa em ambos. Ela os colocou na água quente, a fim de suavizar as dores, mas não resistiu e mergulhou o restante do corpo, cuidando para não fazer barulho. Ficou sentada no lado oposto ao dele, olhando-o fixamente. Ele permanecia imóvel. Um pouco mais aliviada, fechou e abriu os olhos repetidamente, até que o sono, sinal de seu cansaço, fez com que ela adormecesse. Nesse exato momento, ele abriu os olhos e pôs-se a observar seus belos traços. O corpo dela começou a deslizar e, antes que mergulhasse por completo, ele a segurou rapidamente, retirando-a da água, enrolando-a em uma toalha e a conduzindo de volta à cama.

A lareira continuava acessa. Fora uma das ordens que dera à criada – deixar o quarto sempre aquecido. Depois de secá-la, vestiu-a com um roupão de chiffon preto, o qual realçava ainda mais as curvas do seu corpo. Desta vez não a tocou, apesar do forte desejo de possuí-la, e se questionou:

- Por que não? Ela está hipnotizada, posso fazer o que eu quiser...

Para que tais pensamentos não continuassem a rolar em sua cabeça, cobriu-a com um cobertor de pele de coelho, e sentou-se em uma cadeira ao lado da cama até que ela acordasse. Permaneceu ali por horas, guardando seu sono.

Logo ao despertar, ela o questionou:

- Quem me vestiu?

- Eu te vesti.

- Então...

Ele não a deixou terminar. Fitando seus olhos, a fim de deixá-la ainda mais sem ação, disse:

- Então, passei um bom tempo olhando teu belo corpo.

- O que queres comigo?

Em tom firme, sabedor dos seus desejos, continuou:

- Tudo.

- Mas por que sinto que chegamos até o final?

- Eu quis que ficasses com essa sensação para saberes o que estás perdendo. E te digo mais, nós teremos muitos momentos juntos, pertenceremos um ao outro, mas somente quando tu desejares essa aproximação dos nossos corpos.

- E como tu sabes que vou querer? Como podes afirmar isso com tanta certeza?

- Porque eu tenho certeza.

Nesse momento, o diálogo foi interrompido pela criada, trazendo o jantar. Os dois continuaram trocando olhares. Ele pediu que a criada a servisse na cama, devido aos ferimentos em seus pés. Fraca e faminta, ela não rejeitou a alimentação, mas seu estômago não aceitou mais que algumas colheradas.

- Coma mais, senhorita, fiz uma sopa reforçada – diz a criada, preocupada.

- Não consigo, estou com sono.

Sentindo pena da jovem, a criada recolheu o prato que mal havia sido tocado e saiu, a um sinal dele. Depois de alguns minutos de absoluto silêncio, como se pedisse para ele sair do quarto, ela disse:

- O sono insiste em fechar meus olhos.

- Então durma.

- Tenho medo.

- Medo de quê?

- Medo do que tu possas fazer comigo.

- Não precisas ter medo, eu costumo cumprir minha palavra.

- Tu sairás, então?

- Não. Ficarei aqui protegendo o teu sono.

- Mas...

- Eu já disse, não vou tocar-te a menos que queiras.

E um longo silêncio repousou no ambiente. Vencida pelo sono e pelo cansaço, ela adormeceu sentada. Ele se aproximou, acomodou-a na cama, e descobriu seus pés. Esfregou neles uma erva com cheiro de hortelã, juntamente com uma pasta de babosa, até os pés dela ficarem verdes. Cobriu-os novamente, certo de que iriam melhorar.

Ao sair, recomendou à criada que colocasse mais lenha na lareira, para que o fogo perdurasse até o amanhecer.

Com o quarto aquecido, os ferimentos medicados e a fraqueza ainda em seu corpo, ela só acordou no dia seguinte, quando a criada entrou no quarto trazendo o almoço. Disposta com a longa noite de sono, começou a questionar a criada:

- O que estou fazendo aqui neste castelo? Por que sou prisioneira? Quem é aquele homem? O que ele quer de mim? Que festas estranhas são essas?

A criada apenas escutou suas indagações, mas não respondeu a nenhuma delas.

- Estou com muito medo…

E chorou baixinho, cabisbaixa, diante da bandeja de café repleta de sucos, pães, frios, queijos e geléias. Levou a comida à boca. Sem forças para se levantar, mas sentindo a melhora em seus pés, agradeceu a refeição e, ainda deitada, levantou os olhos para o teto. Ficou assim, relembrando tudo o que havia acontecido , até o sono cair sobre ela.

As primeiras estrelas estavam surgindo no céu quando ela despertou. A paz que sentia foi subitamente substituída por insegurança, ao vê-lo em pé junto à cama.

- Estás mais forte agora? – ele foi logo dizendo, enquanto afastava o cobertor e se ajoelhava aos seus pés. Mas as indagações ainda eram suas prioridades no momento. Não notou que, ao se ajoelhar, o gesto dele era de preocupação com seus ferimentos. Foi logo perguntando:

- O que estou fazendo aqui?

- Desejei a tua chegada – respondeu ele calmamente.

- Por que sou tua prisioneira?

- Tu não és minha prisioneira.

- Quem és tu?

- Sou o dono deste castelo.

- O que queres de mim?

- Já te respondi essa pergunta. Quero tudo!

Cortando as perguntas, ele disse:

- Depois do jantar, poderás continuar dormindo.

E saiu do quarto.

Esta rotina perdurou até o sexto dia. Quando a lua se levantava, nessa hora ele aparecia. Mas naquela noite algo diferente aconteceu. Ele não a encontrou na cama. Aflito, percebeu que a janela estava aberta, e que a cortina dançava conforme a melodia do vento. Naquele instante, pensamentos ruins trouxeram-lhe arrependimentos e, quase correndo, ele se dirigiu à sacada.

Suspirou aliviado e feliz ao vê-la admirando a lua. O vento levantava seu vestido e despenteava seus cabelos contra a claridade do céu, e isso lhe foi uma inesquecível visão! Jamais seus olhos haviam registrado tamanha beleza. Não se contendo de tanta felicidade, aproximou-se. Ela olhou para trás, assustada, e, com voz estremecida, disse:

- Quero te agradecer por teres cuidado de mim e de meus ferimentos. Pensei que nunca mais iria voltar a andar como antes, pensei até que iria perder meus pés.

- Mas não tiveste medo?

Ela baixou os olhos e confessou:

- Tive muito medo.

- E ainda estás com medo?

- Sim. Não entendo a razão. Podes me explicar?

- Quero que continues com medo de mim.

- Não estou entendendo...

- Não descansarei enquanto não te possuir.

Atordoada, sem saber o que fazer, ela abriu os braços e gritou:

- Então me tenha... tira-me desta tortura!

Assim como a lua, ela também pensou que aquele homem havia mudado, mas ambas se enganaram redondamente. Neste momento voltou o algoz que estava adormecido nele, que disse:

- Deste jeito, eu não quero. Noto que estás recuperada, então, às onze e meia da noite, quero que vistas aquele vestido vermelho e desças ao salão de festas.

Chorando, ela respondeu:

- Eu não vou!

Em tom autoritário ele disse:

- Tu estás me desafiando? Tu ainda não viste o que é tortura!

E, puxando-a pelo braço, conduziu-a à parte mais negra do castelo...

*Fotos do dia do lançamento.

5 comentários:

Xana disse...

Que castelo de sedução menina, estou aguardando mais :)

beijinho e boa semana

paschoal disse...

Que delicia de narrativa. Parabéns menina. Voce prendeu a minha atenção me desafiando a adivinhar o que vinha a seguir.
Muito bom mesmo! Valeu!

Cármen Neves disse...

Xana, obrigada pelo "menina"! sorriso.Amanhã lerás o terceiro capítulo: prometo. Beijos.

Paschoal, tu também me chamando de "menina"?! sorriso. Que bom saber que consigo prender a atenção de leitores tão inteligentes. Um abraço e grata pela leitura.

Beth disse...

Estou aguardando aqui em casa.... :)

bjs

Cármen Neves disse...

Beth, ele está chegando. Penso que até sexta-feira, estará com ele nas mãos. Beijos